DUDU TSUDA SOLOWORKS / LE SON PAR LUI MÊME

Os espaços abertos de Dudu por LUIZ CHAGAS

Quem conhece Dudu Tsuda, sua onipresença nos palcos paulistanos, musicais ou não, o ar de chapeleiro (pasteleiro?) maluco dos livros de Lewis Caroll, os cabelos compridos caindo sobre as roupas extravagantes, o foco multi-direcionado, não tem o direito de ficar surpreso diante desta sua estréia como artista solo. Dudu é a surpresa, sempre. Neste trabalho inaugural por exemplo, ao invés de apresentar um painel de sua carreira ao lado de formações indie, pop, regionalistas, experimentais ou mainstream, ele se manteve centrado, sereno, igualzinho quando é flagrado discutindo alta cultura enquanto saboreia uma buchada de bode. Tranqüilo e infalível. Como Bruce Lee, diria Caetano.

As músicas apresentadas no álbum e nos shows poderiam ser confundidas com trilhas de filme não fossem elas próprias desencadeadoras de imagens. Exigem – e estão obtendo – atenção, um novo sistema nervoso por parte da audiência baladeira. Cada música é uma verdadeira “viagem”, como se costumava dizer há quase meio século. Carlos Eduardo, o Dudu, em um raro momento não-surpreendente confessa que em seus primeiros conjuntos, quando ainda balançava as perninhas do alto do banquinho dos teclados, o repertório era formado principalmente por canções do Pink Floyd.

Mas o leque se abriu.

Uma rápida olhada no set list de LE SON PAR LUI MÊME garante isso:

LIFE

composta para a banda ZeroUM (ver baixo) durante um período de imersão profunda em krautrock (das bandas experimentais alemãs do final dos anos 1960)

BLUE MORNING

ainda na onda kraut mas afetada por um momento de vazio interior e maloqueiragem, expressos na letra cantada à maneira de Serge Gainsbourg.

LE JOUR OÙ ERIK SATIE A RENCONTRÉ STEREOLAB

sobre o não tão improvável encontro entre Erik, o compositor parisiense, e a banda franco-britânica Stereolab

MUSIC TO FADE AWAY PART I

em um dos poucos momentos em que estava sem banda Dudu, em meio à sessões de terapia corporal, começou a criar desenhos para uma instalação. A instalação não saiu e os desenhos viraram uma letra que fala em crise devida a falta de audiência de seus trabalhos autorais.

SINFONIA PARA ESPAÇOS ABERTOS OPUS NO 08

a número 4 surgiu quando Dudu tinha 18 anos. Com o tempo vieram pela ordem a 2ª, a 1ª e a 3ª – ou seja, primeiro as pares, depois as ímpares. Em 2008 foram reunidas para uma apresentação a pedido do consulado francês e, em 2009, batizada Sinfonia para Espaços Abertos, configuradas como uma instalação sonora dentro do Festival de Arte da Serrinha. Foram tocadas pela primeira vez, na ordem, dois anos mais tarde.

LET ‘EM IN

sucesso de Paul McCartney da menosprezada fase Wings, em arranjo inspirado nos beats futuristas da banda alemã Kraftwerk.

NOTHING LIKE FEELINGS AND COLORS TO MAKE ONE ALIVE

introspectiva, amarga mas doce, levemente inspirada no que o filme “Brokeback Mountain” guarda de “Suplício de uma saudade” (Love is a many-splendored thing)

LE SON PAR LUI MÊME

outra obsessão, a busca pela música que diz “que nos seus ouvidos quero existir”. Simples. Mi, La Ré, à la Beatles. Inspirada em “O gato por dentro”, livro de William Burroughs, acabou batizando o disco

LA GRANDE VILLE

uma ode ao excesso de gente no mundo. A idéia surgiu depois de uma viagem a e em Carrancas, MG, e encontros ‘espirituais’ com Tie, e tem a ver com uma canção de Jacques Dutronc que fala em 700 milhões de chineses (nos anos 1960, hoje são muitos mais… et moi, et moi, et moi) e a mania de Honoré de Balzac de colocar gelo nos pés para não dormir e produzir, produzir…

 

BONUS TRACK

MÚSICA PARA VIDEOGAME BRASILEIRO

nasceu de uma base musical criada para o Cabaret Duar Tsu & Tie Bireaux e da obsessão de Dudu pelos sons dos joguinhos de videogame dividida com Lulina que escreveu a letra – a única em português – e cantou no disco

MUSIC TO FADE AWAY II

a letra em inglês da número 1, surgida de desenhos, agora é cantada em japonês (traduzida por Itoh San) sobre outros acordes, outra melodia, mais alegre.

A banda que o acompanha foi reunida quando ganhou o prêmio Sérgio Motta em 2009 com o “Dudu Tsuda Soloworks”. Rafa e Gui Held, guitarras, Richard Ribeiro, bateria, Liliana Granja Morais, vocais, Bruno Serroni, cello e baixo.

 

DUDU TSUDA por Luiz Chagas

O mais velho dos três irmãos da família Tsuda, com a aproximação do fim do milênio abandonou o curso de Relações Internacionais da PUC – já havia deixado a Ciências Sociais da USP – para viver um ano na França. Com o dinheiro que ganhou trabalhando em uma floricultura parisiense comprou um piano e desembarcou de volta músico outra vez. Em busca de um curso mais criativo entrou em multimeios na PUC onde conheceu os irmãos Ruiz formando o grupo Tugudugunê, uma virada de bateria, as primeiras sílabas dos nomes dos componentes, Tulipa e Gustavo Ruiz, Dudu Tsuda, Gustavo Souza, Anelis Assumpção. Na PUC conheceu também Izzy “Man” Cobra, baixista, e os irmãos Ruiz o apresentaram a Tatá Aeroplano com quem formaria, entre outros grupos, o Cérebro Eletrônico, o ZeroUm, o Jumbo Elektro e a fábrica de composições Elétrons Medievais. Ao lado de Tie criou o Cabaret Duar Tsu & Tie Bireaux, que atraiu componentes dos Druques. Com Natália Mallo, Mariá Portugal e Gustavo Ruiz viajou pelo mundo com o Trash Pour 4 com quem gravou 3 CDs. Gravou também e participou das bandas de Junio Barreto e de Tulipa Ruiz, e foi tecladista da carreira solo de Fernanda Takai e do Pato Fu além de passar por grupos como o Chill Out Co. e o Luz de Caroline. Cria instalações, compõe trilhas sonoras para cinema e dança, escreve blogs, é DJ, produtor, mestrando e dá aulas. Não obstante faliu várias vezes. Este é o Dudu, diria eu.